sexta-feira, 8 de junho de 2018

O POR DO SOL



O POR DO SOL

"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia!" 
(William Shakespeare)

O que torna tão melancólico o entardecer; será o abrandamento da luz diurna, tingindo o espaço com infinitos matizes?
Talvez a brisa, cansada de girar o mundo, testemunhando risos e lágrimas, anseie por compartilhar histórias e sentimentos. Talvez o coração, tocado pelo festival de ternura gratuita, se entregue despercebidamente ao doce enlevo da reflexão, entrevendo multidões de espíritos navegantes do vento, porta-vozes dos dramas e comédias do cotidiano.

Não sei.

Seja como for, o certo é que hoje me peguei pensando em surdina, como se meus pensamentos fizessem parte de uma segunda natureza; como se outro "eu" temesse dar-lhes forma e sentido, receando descobrir neles a minha própria realidade.

Pensava no dia-a-dia de um ser humano comum. Alguém com deveres e direitos, posses e carências, desejos e temores, emaranhados de tal forma que, repetidas vezes, fazem com que seus atos e pensares tomem rumos divergentes, provocando com isso, quase sempre, amargura e tédio.

Às vezes me parece que as pessoas, ao feitio das ostras, encerram-se na concha de seus desencontrados anseios. Um oceano de vida turbilhona ao seu redor, medindo infinitas léguas de esperança, mas, apenas a extrema dor ou o extremo prazer tem o dom de entreabrir-lhes a concha. E me entristeço ao imaginar que a paz e a realização interior podem bater-lhes inutilmente à porta, já que a auto-piedade os ensurdece a tudo o que não seja o objeto de seus desejos reprimidos!
Não lhes ocorre que, a despeito de seu egocentrismo, o Sol ainda nasce ao Leste, dispensando generosamente o sagrado influxo da Vida ao mais modesto ser, tanto quanto a ministros e reis; e que, após vivificar a Terra e os homens, e antes de repousar no Poente, doura o céu com a luz do crepúsculo, oferecendo ao espírito uma fonte de introspecção, que conduz a mente a recordar, meditar e perceber que, embora muitos não saibam ou não aceitem, cada um é parte de um grande Todo. Que a Luz, a Vida e o Amor estão em nós, assim como no ar que respiramos; que a Sublime Essência que nos anima interliga todos os seres, como os galhos de uma árvore.

Se ouvirmos o coração, sentiremos que as dores e alegrias dos outros também são nossas; nada existe isoladamente!

Talvez por isso é que hoje, ao por do Sol, pensando nos que amo e naqueles que sequer conheço, fiquei um pouco triste; por quê, não sei ao certo.

Deve ser a brisa, ou o canto dos pássaros regressando aos ninhos, ou a pálida Luz do Sol Poente, ou, quem sabe, o sussurro dos espíritos vagantes...

Mistérios.




(Minha casa, 15 de janeiro de l997)
                  
                                            Auro


quarta-feira, 16 de maio de 2018

BREVE, PORÉM SINCERA REFLEXÃO SOBRE AS VOCAÇÕES




Ser professor é ter a vocação de transmitir conhecimento e alavancar o progresso das mentes. 

Pensando nisso, lembrei-me de outras vocações bem significativas: a do médico, cujo foco é zelar da saúde física, a do religioso, que se propõe a cuidar da saúde espiritual, e a do político, que pretende participar da construção do edifício social. 

Cada uma dessas vocações, em seu campo, é relevante para o bem das pessoas. 
O problema começa com os equívocos na aplicação das vocações; quando as atitudes misturam, desproporcional e inadequadamente, os conceitos de cada terreno. 

Um médico, por exemplo, pode ser político ou religioso; mas, por bom senso, certamente não tratará de política partidária quando em consulta ou na sala de cirurgia. No púlpito, até por respeito aos fiéis, o pastor não fará conferência sobre medicina, pois está ali para tratar dos fundamentos de sua fé. 

Em plenário, seja qual for a convicção do parlamentar, do político se esperam algumas virtudes fundamentais: equanimidade, tolerância, senso de justiça, pensar no coletivo (pois é pelo e para o coletivo que ele foi eleito). Sem falar na honestidade, pois esta não é virtude: é dever. 

E a honestidade indica que o político não é (ou não deveria ser) eleito para defender os interesses de seu partido, clube de serviço ou denominação religiosa. Honestamente, ele lutará pelo direito, pela inclusão social, pelo acesso às oportunidades para todos os cidadãos. Afinal, a diversidade é uma das características mais evidentes e necessárias à formação e evolução da sociedade. Religião, partido, etnia, comportamento sexual, nada disso deve toldar a visão de justiça de um político por vocação.

É só não misturar as estações!



Auro
outubro/2015


quarta-feira, 2 de maio de 2018

O SAGRADO SILÊNCIO




Quando pensei que já estava acostumado com a agitação do cotidiano, com o ruidoso movimento que caracteriza a vida, de repente me pego buscando silêncio. O silêncio que me ofereça calma e serenidade ao coração. Procuro, então, suprimir ou pelo menos atenuar o burburinho à minha volta; afasto-me da trivialidade barulhenta e me recolho física, mental e emocionalmente, a uma espécie de isolamento.

Na quietude imposta pela solidão, me acomodo e acredito que, finalmente, estou mergulhado no silêncio. Mas logo descubro que essa é uma sensação ilusória; o silêncio pode ser muito eloquente e movimentado.
Na medida em que diminuem os apelos exteriores, mais intensa se torna a cascata perene dos pensamentos. Como uma revoada de pássaros de diversos tipos e cores a pontilhar o azul do céu, ideias e lembranças brotam espontaneamente e, por uma ordenação misteriosa, se agrupam segundo seus conteúdos, induzindo a reflexão quase que compulsória. Obstinado em meu propósito de alcançar o silêncio, entro em luta contra essa correnteza mental; quando imagino ter detido o fluxo das ideias, eis-me envolvido por dilemas, arrazoando, negando, aprovando, justificando!.. 

Frustrado, passo a examinar a natureza dos pensamentos e noto o quanto estão impregnados por algum tipo de emoção. Entendo, então, que não alcançarei o silêncio interior antes de aquietar meu mundo emocional. Com essa esperança, começo a reconhecer as motivações mais íntimas desse torvelinho mental; na raiz dos planos, das convicções, das reminiscências ou prospecções de futuro, estão os desejos reprimidos, os afetos não correspondidos, as lembranças mais caras, os medos e as vontades negadas. Mas ali também estão as crenças infantis, as fantasias de toda ordem, os preconceitos e os produtos do devaneio. É uma constatação incômoda, mas necessária, pois não há como dominar o que desconheço. Tenho, pois, que encarar minhas verdades e recontar minha própria história.

Desse ponto em diante, o mundo mental vai, aos poucos, cedendo lugar às imagens e sensações do plano emocional. Quadros vivos, como num teatro mágico, encenam as minhas dores e meus prazeres. E eu revivo, por instantes, cada momento de angústia ou de contentamento, para além do tempo e do espaço. Consciência e sentimento se unem e se transmutam em outra forma de percepção, capaz de transcender a lógica e as palavras. É como se todas as minhas experiências fossem calcinadas e a cinza resultante representasse a soma do ato de viver.

O ruído interno começa a diminuir, como acontece  num grande salão de festas que vai sendo deixado pelos convivas, ao fim do grande baile. Parece-me então que o desejado silêncio está chegando!..

A sós com a cinza de minhas experiências, agora sem o assédio insistente dos pensamentos e emoções desencontradas, meu coração principia a revelar imagens do que sejam os meus ideais de amor, paz, beleza, justiça, verdade!..  Imagens que brotam do centro do peito, como se ali estivessem desde sempre, porém aprisionadas pelo arbítrio transitório.
Sim, o amor, a paz, a beleza, a justiça, a verdade sempre estiveram presentes no meu coração, ainda que eu não me desse conta! Agora, libertas pelo meu desejo de ser feliz, essas bênçãos primordiais realizam a divina alquimia. Como borboletas multicores, como rosas e lírios, preenchem com alegria o vasto salão do meu Eu. A música da paz toma todos os espaços e ilumina todos os escaninhos dessa empoeirada mansão de mim mesmo!

E assim se faz o Sagrado Silêncio.




Auro
20/4/2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

CANIS ET CIRCENSIS III - O SONHO






Drica esteve adoentada. Ficou internada por três dias na clínica veterinária, devido a uns problemas hepáticos. Já em casa e de volta à rotina, pergunto-lhe sobre os dias de internação:

- E aí, como você se sentiu? Quero dizer, como você utilizou a inatividade forçada?
Após uma coçada de orelha, ela responde:

- Aproveitei para refletir mais um pouco.

- Refletir é algo muito salutar para a mente. Ajuda a organizar os conceitos e direcionar as atitudes. Mas você está meio séria, quase não tem latido pra vizinhança. Consequência das reflexões?

A  pulguenta levantou-se, deu uma volta em torno de si mesma e tornou a se deitar,  com o olhar perdido no horizonte. Após um intervalo de silêncio, resmungou:

- Tive um sonho.

E eu que achava que cachorro não sonha! Fiquei intrigado e desejoso de saber o que a filósofa de quatro patas havia sonhado e que a deixou tão compenetrada.

- Tenho pensado muito sobre o comportamento dos bípedes ditos racionais. Enquanto eu era tratada com carinho e respeito por uma veterinária, ouvia o noticiário sobre multidões de humanos que estão sendo expulsos de seus lugares e forçados à miséria. As notícias falam de uns poucos bípedes que retém o que jamais vão poder utilizar (ou comer), enquanto muitos outros não têm sequer um osso por dia pra roer. Isso incomoda, pois até um quadrúpede sabe que a vida se sustém no alimento.

Concordei com um balançar de cabeça.

- Pois é, Drica. E isso tem sido assim desde que o homem pisou sobre a Terra.

A cadela sentou-se à moda canina e me encarou com um olhar irônico:

- Mas vocês não são a coroa da Criação? Ou suas cabeças só servem mesmo pra separar as orelhas? Cadê a tal racionalidade? Cadê a superioridade da espécie?

Nem fui doido de querer defender o indefensável. Optei por focar o papo no sonho da focinhuda.

- E o que foi mesmo que você sonhou de tão perturbador?

- Ah, foi tenebroso! (outra coçada de orelha; preciso ver se ela está com pulga)! Lembra da alegoria dos Cabires, do Banquete de Platão? (Claro que me lembro. Fui humilhado no repente!) Pois é. No meu sonho, me vi contemplando aquela cena dos deuses partindo os Cabires em duas partes, como castigo pela arrogância, e que resultou na separação dos gêneros e forçou cada um a buscar o seu complemento. Até ai, tudo bem; seria uma justificativa para o amor e a multiplicação da humanidade, certo?

Quem sou eu pra discordar? Certíssimo!

“Mas daí, prosseguiu ela, o cenário do sonho se atualizou. As guerras e os crimes de toda ordem desfilaram perante meus olhos, como um filme (esqueci-me de dizer que Drica adora filmes de ficção científica e de época). Vi homens fazendo a outros homens o que nem os animais fazem entre si; crueldades até mesmo com os filhotes, que todo mundo sabe que são sagrados perante a natureza”.

Caramba! A pulguenta sonhou o Apocalipse! Prendi a respiração pra continuar acompanhando o relato emocionado daquele sonho terrível.

“Vi os homens divididos por crenças e políticas, de um lado bradando “esquerda!” e do outro “direita!”; e o faziam com tal fúria que chegavam a babar e revirar os olhos”.
Lembrei-me de cachorro louco, mas preferi ficar calado.
“Foi então que ele apareceu (ele quem?). trazia na mão a mesma espada com que havia repartido os Cabires (ah!). Olhou por cima daquela balbúrdia humana e falou, com voz de trovão: “Não tem jeito. Vou ter que repetir o tratamento. Esse povo está demorando demais pra aprender”. E passou a rachar os humanos, que ficaram com uma perna, um braço, um olho e um ouvido. E aí eu entendi como seria a lição: nessas condições, ninguém poderia andar (talvez uns pulinhos, como o saci) e cada um, se quisesse fazer qualquer coisa pra si, teria que se apoiar no outro”.

Tai, uma solução genial para a discórdia! “Vou buscar o lanche, segure aí”!
...

Enquanto dividíamos o lanche, Drica prosseguiu a narrativa.
“Parecia que estava tudo resolvido, que agora a humanidade iria se unir, nem que fosse por sobrevivência. Mas o tempo acelerou-se em meu sonho e eis que vejo o resultado da tentativa: os meio-humanos se uniam para conseguir comida e resolver suas necessidades. Uma vez saciados, a metade “esquerda” passava a agredir a metade “direita”, sem se lembrarem de que, separados, nada seriam. E assim, se trucidaram mutuamente, com a estupidez característica desses bípedes que se creem racionais”

Pega leve, cadela! “Mais um pedaço de bolo?’



Auro
10/2/2018




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

ENCONTRO DAS ÁGUAS


Dizem que a vida é como o rio; desde a nascente, serpenteando sobre a terra, cavando seu leito, arrastando o que não lhe resista o peso das águas, seguindo um roteiro comum aos rios, busca o mar. Dizem ainda que o rio não se repete: a correnteza de agora não é a mesma de momentos antes, nem será a mesma momentos depois.

Dizem também que o rio é como a vida, que brota da intimidade do mistério e flui sobre o leito do tempo. Feito água, altera a paisagem que a cerca, provocando em quem vive marcas de dor e prazer, encontros e desencontros, chegadas e partidas.  Tal e qual o rio, a vida busca o mar de sua própria origem e natureza. E, à semelhança da correnteza, chega ao destino trazendo consigo vestígios indeléveis das aventuras e desventuras da jornada.

Talvez esta seja a razão da impermanência. Pode ser que a duração da experiência tenha a ver com a velocidade da correnteza da vida.  E por serem os sentidos e sentimentos confinados ao leito do tempo, o eterno de agora, em algum momento do depois, passa a ser lembrança do que se foi.

Mas a lembrança... O que é a lembrança? Na transitoriedade do fluir da vida, o que é a memória? Que sortilégio faz com que dor e prazer, ódio e amor, amargura e felicidade permaneçam em algum canto do coração, com o mesmo viço e as mesmas emoções, como se dias e horas não mais prevaleçam sobre a consciência? Ali, bem diante da alma, estão os gestos, as palavras, olhares e afetos; basta um pequeno impulso do sentir, a contemplação de um retrato, as notas de uma velha melodia e eis que se abrem as janelas da recordação, cortinas de um teatro que encena a história de cada um.

Talvez a memória seja uma pequena porção de eternidade na finitude do existir. Talvez o oceano primordial da vida seja feito de incontáveis memórias de tantos rios que correm para o mar.

Talvez!..



Auro
30/01/2018


sábado, 30 de dezembro de 2017

DILEMA LUMINOSO


Luz é uma palavra mágica. Monossílabo onipresente nos anseios de religiosos e místicos, espiritualistas, intelectuais e artistas, é a síntese da busca da perfeição, do esclarecimento pleno, da verdade em si. Situa-se no topo das aspirações da mente humana, como o Graal, cuja posse é a chave dos mistérios, seja qual for o plano em que a necessidade trafegue. Todos perseguem a Luz, como mariposas apaixonadas, pois tê-la é redimir-se dos erros decorrentes da ignorância.  Aliás, na linguagem simbólica, a ignorância é associada às trevas, em oposição à Luz.

Por conta dessa dualidade, a Luz pode ser tida como sinônimo de felicidade, bem-aventurança, paz; a extinção das aflições e incertezas, pela contemplação da realidade.

Mas é possível que, no processo evolutivo, as coisas não sejam exatamente assim. Pode ser que o desejado encontro com a Luz não traga o contentamento imaginado; antes, provoque uma dolorosa constatação do acervo de equívocos longamente acalentados. Talvez cause muito desconforto ao desalojar crenças primitivas e concepções imaturas, que adquiriram, para seus adeptos, o foro de convicções. Talvez obrigue o buscador a admitir que, ora por indolência, ora por presunção, acumulou ideias prontas, cultuando-as como verdades e pautando por estas a sua conduta. Será constrangedor descobrir-se como o único e negligente causador de suas próprias desditas.

Mas é possível, também, que esse contraste seja natural e necessário. Os prisioneiros da Caverna de Platão só enxergavam sombras do mundo exterior, formando dessa visão o seu conceito de verdade. Permaneceram estagnados nessa condição incompleta até serem conduzidos à Luz, cujo resplendor os incomodou grandemente nos primeiros momentos. Logo, porém, reordenaram suas percepções da vida a partir do mundo real que lhes fora revelado.

No meio do caminho de nossa vida/ Encontrei-me numa selva obscura/ Que a estrada reta fora perdida”. Para Dante Alighieri, este foi o momento da cruel constatação de que, para reencontrar sua amada Beatriz, precisaria cruzar o abismo da própria ignorância. Entendera que pouco ou nada conhecia, tanto da Luz que buscava quanto da Treva em que habitava, na placidez da inconsciência. Graças à Luz, desceu aos infernos e contemplou a crueza dos tormentos reservados aos incautos. Aprendeu que, em cada pena, existe a raiz de um pecado; e que todos os pecados não eram mais do que a ausência de Luz!..

E somente após a claridade ter-lhe revelado os porões da obscuridade espiritual pôde o poeta ascender aos céus, um a um e, finalmente, reunir-se à pura, casta e Luminosa Beatriz, selando assim um sonho de amor!



Auro Barreiros
31/12/20’17


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

ANATOMIA DA ALMA - CAPÍTULO I



Anatomia da Alma – Capítulo I
(Passeando pelos porões)


O ressentimento é dissimulado.
Mostra-se choroso, desolado,
Um injustiçado, embora virtuoso.

Clama pelo desconhecimento,
Que lhe causa surdo sofrimento,
E lhe maltrata o ego caprichoso.

A mágoa desbotada do passado
Ainda o mantém agrilhoado
Aos pés de uma imagem carcomida.

Porém, por ser assim, dissimulado,
Tem dias que sai, fantasiado,
E desfila com garbo na avenida,

Disfarça entre as dobras da plumagem
E nos belos meneios da linguagem
O surdo latejar da velha ferida!

Como Prometeu acorrentado,
O ressentido vê perpetuado
O seu tormento, como chaga viva;

Aprisionado aos seus rancores,
Apaixonado pelas próprias dores,
É tão somente uma alma cativa.



Auro Barreiros
2/11/2017











sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CANIS ET CIRCENSIS II - O DESAFIO



E como naquele final de tarde soprava uma brisa inspiradora, Drica iniciou a prosa me lançando um desafio. A danadinha propôs que os questionamentos de ambas as partes fossem respondidos em versos. Assim como um duelo de repentistas. Fiquei surpreso, pois não conhecia a vertente poética dessa criatura, cuja existência quase finda em seus primeiros dias por conta de uns carrapatos. Mas, desafio feito, desafio aceito. Decidimos no par-ou-ímpar pra ver quem começava. Coube a mim a honra de iniciar a porfia e, matreiro, resolvi me apegar aos pais da matéria.

Drica, minha jovem; no Banquete de Platão acontece um debate sobre a natureza do amor, onde surgem alegorias incríveis, como a dos cabires e a justificativa para a separação dos sexos. (Ela levanta uma orelha, em sinal de atenção) Sócrates, que era o palestrante mais esperado na ocasião, após exercer a sua peculiar maiêutica e conduzir o raciocínio para uma nova abordagem, surpreende a todos com uma visão psicológica do sentimento, em que evoca a deusa Necessidade para argumentar que o Amor, ao menos em relação ao homem, não é um deus, nem um “daemon”, mas um gênio. Sua natureza é de carência, que leva à busca do que lhe falta para sentir-se pleno. E você, o que acha da tese de Sócrates”?
Ponteei a viola (dém, dém, dém, dém) e a quadrúpede abusada mandou a letra:

“Esse grego era mesmo bem esperto,
Discordou sem ferir nem criar clima,
Sem trair o fiel manteve a rima
Na mensagem do pensamento aberto,
Sabiamente apontou o rumo certo
Conforme aprendeu com Diotima!”
(Caramba!)
“Fosse um deus e tivesse a plenitude
E a total satisfação de seu desejo
Não seria o Amor, pelo que vejo,
Buscado pelo ser, como virtude;
Mas apenas o sonho que ilude
E à fugaz fantasia dá ensejo”!

(Eu, hein?)

Dos Cabires a simbologia
Nos recorda que a dualidade
É fase transitória da verdade
De que tanto se ocupa a filosofia,
Pra que o homem descubra, algum dia,
A origem da tal Necessidade”!

Pegou pesado, a pulguenta! Já meio arrependido de ter aceitado a proposta poética, me concentro no ponteio da viola, que, no momento, é minha única fortaleza. Drica dá uma coçada na orelha e prossegue:

Uma coisa, porém, é o sentimento
Que motiva a buscar o seu reverso
Outra coisa é a Lei que canto em verso,
A matriz do perpétuo movimento
Dos arcanos reais, do firmamento
E da vida que pulsa no Universo”!

(!)

O amor que a Natureza expressa
É reflexo da Lei que o sublima;
Embaixo, você sabe, é como em cima,
E tudo o que existe assim começa;
Esta é a parte que nos interessa
Conforme ensinara Diotima”!

Acordes finais da viola, propus uma pausa para o lanche, pois conheço a filósofa canina (e hermetista, como acabo de descobrir) e sei que só assim terei folga para me preparar.

“Mais um biscoitinho?”

“Au!”


Auro Barreiros
20/10/2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

CANIS ET CIRCENSIS - I





Drica, minha cadela, é versada em filosofia. Do alto de sua avançada idade, para os padrões caninos, volta e meia me agracia com preciosas reflexões. Reflexões maduras, profundas e abrangentes, que estabelecem correlações inusitadas entre sua ótica de quadrúpede e o plano das consequências, que normalmente afeta muito mais os bípedes ditos racionais.

As repetidas conversas de fim de tarde findaram por desenvolver entre nós uma espécie de comunicação não-verbal (ao menos de minha parte), algo entre a linguagem corporal e a telepatia. 
Numa dessas prosas, enquanto assistíamos o jornal da noite, propus (bem ao estilo socrático), uma análise da paixão humana pelo poder. Esse “humana” foi sugestão dela, que, de cara, me pontuou que cachorro não tem isso. Segundo ela, a única coisa que se assemelha a paixão no universo canino é o amor ao dono, muitas vezes imerecido, mas incondicional e perene.

Mas, como eu disse, assistíamos o jornal e nos debruçávamos no exame das complexas e esdrúxulas personalidades que nele desfilavam; em nível mundial, homens alucinados, tendo nas mãos uma chave que pode abrir as janelas do céu ou escancarar os portões do inferno. Por suas atitudes provocativas e infantis, o temor é de que prefiram a segunda hipótese.

“Como você vê essa escalada de tensão entre potências, que tem o potencial de arrastar a humanidade para mais um fratricídio de proporções globais”?

Drica se levanta, vai à varanda, dá uma meia dúzia de latidos e volta, sentando-se aos meus pés, com uma expressão de esperteza no olhar, que minha recém-desenvolvida habilidade telepática rápidamente converte em uma resposta: 

“É deplorável, mas compreensível o comportamento  desses humanos. Apesar de toda a sofisticação que os rodeia, ainda não aprenderam a separar o instinto da razão. Como os animais, querem “marcar território”, mas desconhecem o limite de cada demarcação. Ainda não aprenderam conosco a se fazerem respeitados pela sua própria natureza, de modo que não lhes basta latir; tem que morder, também”.

(Pausa para reflexão e mastigar um pedaço do pão com manteiga do meu café da tarde).


Auro
14/10/2017


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O BUSCADOR DA VERDADE (AQUELA QUE NÃO QUER CALAR)





Era inverno. Ali, no Himalaia, essa estação do ano era a ideia mais próxima que se poderia ter da morte, ainda que a morte fosse definida pelos ensinamentos de meu guru como mera ilusão provocada pelas limitações da consciência aprisionada à carne; Maya, em uma palavra. Mas era uma ilusão muito real e dolorosa para mim, que ainda  não me libertara das trevas da ignorância e não passava de um simples Chela (discípulo, para os leigos). Um simples e medíocre Chela, que, naquele dia de cruel inverno tibetano, escalava a face mais íngreme de uma certa montanha (não direi qual, para preservar o segredo da morada do meu guru), buscando a luz que saciaria minha sede de conhecimento.

Depois de um dia interminável de tropeços, quedas, dolorosas rachaduras nos lábios e mãos, pés petrificados e a constante ameaça de hipotermia, eis-me à entrada da caverna em que aquele homem santo meditava, sentado em lótus. A débil chama de um candeeiro abastecido com manteiga de iaque lançava reflexos dourados à barba longa e branca (lembrava uma estalactite), formando uma imagem que induzia o respeito e a veneração.
A pedra gelada que me serviu de banco certamente estava à minha espera, pois reunira todo o frio da montanha para me congelar a coluna, desde a base até a nuca. Rígido e feliz por estar ali, aos pés do mestre, meditei por algum tempo (horas, dias, meses, talvez; isso é irrelevante, pois, segundo o mestre, o tempo também é uma ilusão da consciência limitada, em sua prisão de carne. Maya, claro!).

Ao regressar do quase-nirvana, as questões transcendentais que me levaram até aquele santo lugar começaram a enfileirar-se em minha mente. Decidi então iniciar meu aprendizado, dirigindo ao sábio asceta a primeira de incontáveis perguntas.

“Iluminado Instrutor das almas trevosas (a praxe ritualística determina que, dirigindo-se ao Guru, uma exaltação cerimoniosa deve preceder a fala), podeis me explicar a origem e sentido da vida?”

Aguardei, reverente, a breve introspecção daquele que me tiraria a venda dos olhos espirituais. Em poucos minutos, o vetusto ser abre os olhos e começa a me responder, com um leve sorriso a bailar em seus lábios:
“Ignóbil Chela (o esculacho também é praxe ritual), isso é de uma simplicidade infantil. A origem da vida...(não vou relatar a resposta do mestre, pois a mesma demorou mais ou menos uma semana para ser concluida. E era um resumo para pricipiantes como eu).
Transbordante de alegria, eu teria até dançado, se a rigidez imposta pelo frio não me tolhesse quase todos os movimentos. Finalmente, estava recebendo a luz que tanto buscara, desde o Paquistão até a Grande Muralha da China. Inebriado e feliz, passei para a próxima questão:

“Ó, Profundidade Oceânica da Sabedoria Ancestral (dessa vez eu caprichei)! Podeis descrever as dimensões espirituais?”
“Claro, estúpido antropoide! Mas preste atenção, que só falarei uma vez!” E por mais uma semana, o Erudito preceptor discorreu sobre o tema. Eu, absorto, bebia cada palavra.
E assim, pergunta após pergunta, fui realizando meu austero discipulado. O intenso frio já não me incomodava; aliás, à exceção do queixo e dos olhos, todo meu corpo era uma pedra de gelo insensível.

Um dia, ao final de uma bela tarde de inverno (esqueci-me de dizer que o inverno nunca termina no Himalaia), resolvi formular a questão das questões, a dúvida que me perseguia por vidas afora. Respirei fundo, conforme as práticas de Pranayama e mandei:

“Venerando Guardião das Verdades Eternas (esse eu havia reservado para uma pergunta especial); como bem o sabes, a humanidade está vivendo um caos de ordem ética, cujas consequencias espirituais podem ser notadas na insalubridade mental e emocional da sociedade (o mestre, até então sorridente, começou a mudar a expressão; encolheu os lábios, franziu levemente o cenho e me encarou, entre curioso e contrariado). E a parte mais contraditória dessa crise é ser protagonizada por aqueles que têm acesso ao conhecimento e, por justiça, deveriam ser os primeiros a preservar os valores morais duramente conquistados. Agentes da lei que acobertam e até praticam o crime, magistrados que se vendem e vendem seus favores, homens públicos que se locupletam do bem que é de todos, feito baratas no melado, insensíveis ao sofrimento que provocam ao redor. Castas privilegiadas que arrogam supremacia em função da crença ou da cor da pele, sistemas econômicos que encampam a ciência em prol do lucro desmedido, comerciantes da fé e das armas, uns e outros gerando a guerra como fonte de renda; tudo isso acontecendo debaixo do céu de Brahman, Jeová, Alah, ou seja lá quem for o Regente Universal! Dizei, ó Farol das Almas! Como entender isso? E, principalmente, como acabar com isso?”

O Magnânimo Yogue estava visívelmente contrafeito. Fechou os olhos e demorou-se por algum tempo (dias, semanas, meses? Não importa, pois ele mesmo disse que o tempo etc, etc.), até que, concentrado, inspirou profundamente e emitiu um longo gemido:

“Hummmmmm!..”

Sem entender se traatava-se de um mantra ou uma resposta cifrada, aquietei minha mente e entrei em meditação profunda, enqanto o vento cortante do inverno tibetano terminava de congelar meu corpo.

Não sei por quanto tempo permaneci nesse transe. Mas em cerca de mil e quinhentos anos a Lei de Samsara já me trouxe de volta a esse plano por quinze vezes. E até agora não sei se o gemido do mestre era um mantra, uma resposta ou só um gemido.



Auro Barreiros,
O incompetente Chela

20/8/2017

domingo, 10 de setembro de 2017

A REGRA DE OURO


Na antiguidade, escultores e construtores definiram um princípio de proporção ideal, cuja aplicação deveria conferir às suas obras o mais elevado sentido de harmonia. Esse princípio era conhecido como “número de ouro”, ou “proporção áurea”[1], ou ainda (e por justa causa) “divina proporção”, já que refletia, entre outras coisas, o dimensionamento do corpo humano e suas intrigantes relações matemáticas.
Desde então pode se reconhecer a presença dessa proporção áurea nas obras dos grandes mestres da escultura, da pintura e da arquitetura, exatamente pelo que eles buscavam traduzir em suas criações: o equilíbrio e a harmonia próprios da natureza.

Mas a busca da perfeição não se limitou às ciências e artes; na filosofia de Platão encontramos a noção do Mundo das Ideias, o arquétipo em que o plano terreno se reflete, de forma imprecisa e distorcida como as sombras do Mito da Caverna. Para Platão, o Bem, o Belo e o Justo são princípios que têm existência real e constituem a essência de toda a Criação; logo, aperfeiçoar algo ou a si mesmo consiste básicamente em desvencilhar-se das sombras e retornar ao mundo real, daí se dizer que “aprender é recordar”.

Esses conceitos estão no âmago das principais correntes de pensamento espiritualista e grandes religiões. A percepção da lei natural de compensação transparece na doutrina do Karma e nas exortações do Evangelho em relação às atitudes para com os outros e suas consequências. Fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem é um conselho que recebeu o título de “Regra de Ouro”; o exercício pleno dessa regra significa o mais desejado entendimento das leis divinas e suas implicações na conquista da paz e da felicidade em Deus.

Mas, talvez em função dos limites da mente humana, ajustar-se a essa Regra de Ouro ainda não é uma tarefa simples. Muitas vezes o retorno das mais bem-intencionadas atitudes é o descaso, que pode culminar no que é percebido como ingratidão. É pouco provável que exista alguma pessoa adulta que não tenha sua história de frustração diante do menosprezo alheio ao seu sincero desejo de ajudar. Na maioria das histórias registra-se um fato comum; alguém que tenta partilhar com o outro algo que, para si, é a expressão do bem, da verdade e da justiça, sofrendo a decepção de não ver compreendidos e aceitos os seus propósitos, conselhos ou gestos, do que resultam amizades abaladas, laços afetivos rompidos, esvaziamento da confiança e do respeito mútuo.

Mas, afinal, em que consiste a decepção? Por que nos importa tanto o reconhecimento dos outros em relação aos nossos atos e intenções? Provavelmente, a decepção tem raízes no desejo de gratificação; a mente primitiva requer a retribuição, o prêmio, a distinção dos possíveis gestos de eventual despreendimento. O instinto cobra a satisfação e a mente racional estipula o preço: o aplauso, a aclamação, o agradecimento e a reciprocidade. Essa conduta está de tal forma arraigada ao inconsciente que se manifesta até mesmo nas relações que o homem tenta estabelecer com o Deus de sua compreensão. Na maior parte das religiões existe a prática da permuta entre o fiel e a divindade; determinada graça pode ser concedida, se tal e qual promessa for paga ou algum tipo de sacrifício seja feito.  E quando a graça não é alcançada, ocorre o pensamento de que a promessa ou o sacrifício não tenham sido suficientes, ou foram mal cumpridos. Raramente passa pela cabeça do homem que sua concepção das virtudes de Deus pode estar equivocada; que o desejo humano pode não estar em acordo com a Lei Universal, ou que a intervenção solicitada pode ser imerecida. Assim, por ignorância a respeito do que acredita, o ser humano oscila entre a fé vacilante e a dúvida inconfessa.

Temos então, diante de nós, um impasse: aceitamos que Deus existe e, por ilação, atribuímos-lhe certas características morais, tal e qual o faríamos a um lider ou soberano. Repetimos há séculos (ou milênios) que Deus é Onipotente, Onipresente e Onisciente e, bem por isso, é perfeito em Justiça e Amor.  Mas nem sempre, ou quase nunca conseguimos enxergar essa justiça e esse amor no desenrolar de eventos trágicos e das aparentes incoerências do que se costuma chamar “destino”. Muito do que dizemos crer a respeito de Deus permanece apenas no campo da dialética, sem o alicerce da convicção.
Isso é compreensível, pois há conceitos para os quais a mente humana carece de parâmetros: eternidade, imortalidade, infinitude... Dentre estes, talvez o mais complicado seja conceber o Princípio de toda a realidade, pois este reúne em si todos os outros conceitos como atributos. Um Ser Supremo tem que ser incriado, pois, se tiver uma origem, por mais remota, já não é eterno e deixa um vácuo de tempo no seu “antes”. Tem que ser onipresente, de amplitude infinita, pois, se sua abrangencia tiver algum limite, o que existirá além daquela fronteira?Outro Deus? Tudo isso parece óbvio, mas, quando tentamos racionalizar a natureza dessa Entidade Suprema, esbarramos na dificuldade de conceber o que não tem um espelho em nossa mente.

A provável solução para esse dilema talvez seja buscar a compreensão do cosmo que nos rodeia e do qual somos parte, pois isso é passível de percepção e assimilação em nível do intelecto. Tal exercício poderia, certamente, ampliar a concepção de uma Consciência Suprema, universal e ilimitada no tempo e no espaço. Disso resultaria uma reavaliação de critérios no relacionamento com essa Consciência e com o Cosmo, do qual, supõe-se, todo ser é parte. O desejo inconsciente de retribuição seria convertido na busca de harmonia, como consequência natural de pensar, sentir e agir segundo leis impessoais, equânimes e justas por excelência.

Equanimidade e justiça; talvez seja esta a chave para a compreensão de uma “Regra de Ouro”. O Mestre Jesus a explicitou de forma sucinta, quando aconselhou que não se deve fazer aos outros aquilo que não se deseja para si. Mas o oposto também é verdadeiro; fazer ao outro o que se deseja para si faz parte da construção dessa regra de convivência. Isso tem relevância, principalmente, nas relações interpessoais, nas questões básicas de direitos e deveres. A percepção de reciprocidade se reflete, ainda que imperfeitamente, nos códigos e leis humanas.
Porém as leis e códigos, por serem de origem humana e elaborados segundo os limites de época, costumes e conveniências, nem sempre refletem essa reciprocidade no grau desejado. Concedem-se privilégios por razões obscuras, ao mesmo tempo em que são desconsiderados direitos naturais do homem, como as liberdades, a sobrevivência, o acesso ao conhecimento.  O corporativismo, que nada mais é do que o egoísmo no coletivo,  legisla e decide conforme interesses imediatos de uma classe, em detrimento da ética, forjando assim uma moral flutuante, que propicia a leniência dos costumes e a inércia espiritual.

Não há como conceber uma “Regra de Ouro” no sentido original do conceito, sem dissecar a práxis ética e moral, submetendo-a ao crivo da reciprocidade. O ser humano não deveria ser bom por temor a um Deus ou a uma lei, mas por empatia; a dor do vizinho me dói, mas sua alegria me alegra.

E isso nos traz de volta o questionamento quanto à relação entre o homem e seu Deus, o Deus de sua concepção.  O que esperar de Deus? Bem, isso vai depender do que se imagina como atributos dessa entidade misteriosa; como será seu pensar? Terá Deus sentimentos e vontades semelhantes às do homem? Ele se aborrece? Ele se entristece? Ele tem preferências ou antipatias? Tem inimigos? Se o Deus concebido tem todas essas características, não dá pra se esperar muito dele em termos de Justiça, pois um deus assim é apenas um homem, ainda que a ele se atribuam poderes transcendentais. A relação com seus devotos terá a cor das paixões humanas, inexatas, injustas e imprevisíveis.
Mas, e se esse deus for de tal forma benevolente que ignore as insanidades do tutelado, agraciando-o com generosas bênçãos em troca de meia dúzia de palavras adocicadas em uma prece de louvor? Seria uma divindade mais confiável?

No que diga respeito à concepção de Deus, não há como fechar questão. Cada um a desenvolve por si e segundo sua própria percepção. Mas o bom senso indica que a convivência com a ideia de Deus será tão harmoniosa quanto for fundamentada na compreensão das leis naturais e cósmicas. Essa sintonia ideal é definida por Jesus, quando resume a Lei e os profetas de seu tempo em um magnífico ensinamento: “Ama ao próximo como a ti mesmo e a Deus sobre todas as coisas”[2]. Senão, pensemos: é possível amara ao próximo sem amar a Deus? Talvez sim, para os ateus. Estes não concebem uma entidade ou força inteligente como criadora e ordenadora do Cosmo, mas isso não é impedimento para que nutram o mais sincero sentimento fraterno em relação ao semelhante. E amar a Deus sem amar ao próximo? Sim, também é possível, para quem alimenta a ideia de um deus-homem, com as mesmas limitações psicológicas de suas criaturas. No entanto, considerando-se a impessoalidade como prerrogativa essencial para uma justiça perfeita, esse amor seria unilateral, pois não encontraria eco na dimensão cósmica. Esse tipo de concepção da natureza de Deus delimita suas benesses ao restrito círculo de afetos e interesses do devoto, contrariando assim a noção de equanimidade.

E o que tudo isso tem a ver com a Regra de Ouro?  Bem, dissemos antes que essa Regra pretende refletir o equilíbrio e a harmonia da Natureza. E a Natureza é manifestação visível da Consciência Suprema, ou Lei Universal a que a mente humana atribui a origem e domínio de todas as coisas. Logo, os eventos naturais e cósmicos refletem, em alguma grandeza, a forma ideal de justiça. O homem, por seu atributo de autoconsciência, pode testemunhar em si mesmo essa realidade, na alternância entre dor e prazer, infortúnio e felicidade, carência e plenitude. Sua consciência, ainda que limitada,  é capaz de entrever o encadeamento de causas e consequências que produz o seu destino. Mais ainda, percebe que seus desejos movimentam as peças desse jogo, o que o faz compreender que é, em grande medida, o artífice do já mencionado destino.

Quanto mais amadurece na compreensão dessa dinâmica da Lei Cósmica, menos o ser humano encontra justificativa para a auto-piedade. O reconhecimento de que seus pensamentos, palavras e ações constroem o futuro que terá que viver, fatalmente o induz a considerar o “outro”; seu próximo, com quem partilha o drama da existência. Mais dia, menos dia, se convencerá de que, a despeito das aparentes diferenças, a estrutura interior de todo homem ou mulher é fundamentada nos mesmos princípios naturais; fugimos da dor e buscamos o prazer, a felicidade, a compensação, ainda que, por ignorância, frequentemente nos equivoquemos, provocando justamente o sofrimento que pretendíamos evitar. Daí a imensa profundidade do conselho de Jesus: “Tudo o que quereis que vos façam, façais também aos outros”[3].

Mas, mesmo esse majestoso conselho precisa ser bem compreendido, para que não sirva de desculpa à invasão da liberdade do próximo. É conveniente que se examine desapaixonadamente aquilo que o homem faz para si. Que frutos ele colhe das atitudes e práticas que tem para consigo mesmo? No passado (e ainda hoje), grupos religiosos empenhavam-se em difundir suas doutrinas a outros povos. Emprincípio, não há nada de errado nisso, pois todos devem ter a liberdade de proclamar suas crenças. Mas, em nome desse ato de fé, muitas vezes a consciência do outro é atropelada pela ideia de que o “meu deus” é verdadeiro e o “seu deus” é falso. Culturas milenares foram assim destruídas ou deturpadas, e nenhuma felicidade foi acrescentada aos convertidos. Mas, quem impingiu suas convicções, muitas vezes o fez na crença de que estava fazendo ao próximo o que desejaria para si mesmo. Será que a situação inversa seria aceita com esse mesmo espírito de compreensão? Num caso como esse, a Regra de Ouro não seria o respeito às diferenças?

Para melhor estabelecer uma “Regra de Ouro” pessoal, pode-se realizar um exercício de consciência. Esse exercício consiste em separar um período da vida cotidiana para “sair de si” e tornar-se expectador dos próprios pensamentos e atitudes, registrando os efeitos mentais, emocionais ou mesmo físicos resultantes, tanto em si quanto (e especialmente) nos outros. A ideia é se ver como num teatro, em cujo palco esteja sendo encenada a peça “Eu e o Mundo”. No tablado, entre os atores, há um que representa fielmente o “Eu”; é o papel principal. Mas os outros artistas não são menos importantes, pois é de sua interação com o “Eu” que as verdades do coração podem se revelar. No transcurso dessa encenação, será possível entrever o real sentimento que motiva cada ato. E, ao fim da peça, o espectador poderá ter um retrato aproximado de seu próprio Eu e das consequências boas ou más de sua forma de conviver com o mundo. Quem sabe, perceberá (e admitirá) o quanto ainda age por desejo de compensação. Principalmente, compreenderá até que ponto esse desejo é natural e a partir de quando se torna um obstáculo ao amadurecimento espiritual. Tais noções, obtidas do exercício de “sair de si”, lhe possibilitarão iniciar a elaboração de uma “Regra de Ouro”, que lhe trará frutos de paz e harmonia, na proporção em que esteja em consonância com as Leis Universais, cuja perfeição e Amor se traduzem na Natureza e no Cosmo.


 Auro Barreiros
Setembro/2017






[1] Descrita, primeiramente, por Euclides, há aproximadamente 2.300 anos, na obra “Os Elementos”.

[2] Marcos,12: 30 e 31

[3] Mateus, 7:12